‘Boca da Denar’: suposto desvio de drogas apreendidas pela PC rendeu R$ 1,6 milhão, diz Gaeco

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A denúncia do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) sobre um suposto esquema de desvio de drogas apreendidas na Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) também identificou movimentações financeiras que indicariam lavagem de dinheiro.

O documento também levanta suspeitas sobre a evolução patrimonial do delegado Hoffman, apontado pela acusação como integrante da estrutura investigada.

Movimentação financeira ultrapassou R$ 1,6 milhão

Agentes durante Operação Infiltrados. (Leo de França, Midiamax)

A denúncia descreve 21 operações financeiras realizadas por duas investigadas que seriam as ‘testas de ferro’ do traficante Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, apontado como responsável pela articulação entre os policiais e os integrantes do tráfico. Ele forneceria informações sobre carregamentos que seriam interceptados, negociaria a quantidade de droga desviada e coordenaria a venda dos entorpecentes.

As movimentações rastreadas no período entre 17 de maio e 15 de outubro de 2024 totalizaram R$ 1.632.604,32, que tiveram como beneficiários finais ‘LK’ e a empresa L R Obras e Construções, conforme o levantamento apresentado pelo Gaeco.

A denúncia relaciona as movimentações ao contexto financeiro do suposto esquema criminoso investigado.
Para o Ministério Público, as operações indicariam que recursos relacionados ao tráfico de drogas desviadas da delegacia teriam circulado por diferentes contas, inclusive de terceiros, como forma de dificultar a identificação de sua origem e destinação.

A acusação também descreve o uso de dinheiro em espécie para pagamentos a agentes públicos. Conforme o documento, parte dos valores movimentados teria sido sacada e repassada pessoalmente a policiais civis envolvidos no esquema investigado.

Delegado pagou R$ 400 mil em espécie por terreno no Alphaville

Mansão estava sendo construída no Alphaville. (Reprodução, Documento do Gaeco)

A denúncia levanta suspeitas relacionadas ao patrimônio do delegado Hoffman. A acusação situa o delegado na estrutura do suposto esquema de desvio de entorpecentes e investiga possíveis mecanismos de ocultação de recursos e bens.

Segundo a denúncia, o delegado Hoffman apresentou evolução patrimonial considerada incompatível com seus rendimentos lícitos durante o período em que esteve lotado na Denar.

O documento aponta que o total de bens e direitos declarados passou de R$ 374 mil, em dezembro de 2023, para R$ 1,22 milhão, em dezembro de 2025. No mesmo intervalo, as dívidas declaradas aumentaram de R$ 274,8 mil para R$ 1,36 milhão.

A denúncia ainda destaca a compra, em 2024, de um terreno no condomínio Alphaville I, declarado por R$ 400 mil e pago em dinheiro vivo, além de R$ 75 mil em espécie utilizados na aquisição de um Honda HR-V, modelo 2025.

Sobre a construção da residência no condomínio, o Gaeco afirma ter encontrado planilhas nos dados telemáticos do delegado que indicavam custo superior a R$ 1,6 milhão apenas para a etapa de acabamento.

Hoffman afirmou, em interrogatório, ter recebido um empréstimo de R$ 750 mil de um amigo, em dinheiro, na cidade de Goiânia, e disse ter investido a maior parte do valor na construção da casa. “Há inúmeros sinais de que se trata de mera simulação para mascarar o ingresso de dinheiro ilegal e compatibilizar a sua situação fiscal (manobra de lavagem de dinheiro)”, diz trecho da denúncia sobre o empréstimo.

A denúncia afirma que não foi apresentada comprovação do empréstimo e sustenta que a movimentação em espécie teria dificultado o rastreamento dos recursos e a verificação da compatibilidade entre renda e patrimônio.

O Gaeco também identificou R$ 436.752 em créditos recebidos pelo delegado e pela esposa, em movimentações nas quais os depositantes não foram identificados ou tiveram identificação considerada precária. “Características típicas de recebimento de propina”, destaca o documento.

Defesa diz que delegado não teve participação nesses eventos

A defesa do delegado Hoffman, feita pelo advogado José Roberto Rosa, afirma que as provas apresentadas serão questionadas durante a instrução processual. Segundo o advogado, a análise dos elementos em seu contexto integral deve demonstrar que o delegado não participou dos ilícitos investigados.

“Infelizmente, há indicações de que pessoas que agiam sob o comando do delegado teriam, de alguma forma, agido contra a lei, mas não há indicação direta de participação dele [Hoffman], a não ser recortes com indicações e suposições de que ele teria aderido a essa conduta”, afirmou Rosa.

O advogado também destacou que as provas serão contestadas durante o processo judicial e demonstrou confiança no resultado. “Temos certeza de que, ao final, a verdade vai prevalecer e vai ficar demonstrado que o delegado não teve qualquer participação nesses eventos”, declarou.

Midiamax

Foto capa:Henrique Arakaki