Maracaju: pichação e ligação suspeita motivaram execução de rapaz em boate
Depoimentos prestados à Polícia Civil detalham a dinâmica do assassinato de Ray Felipe Leite Feliciano, de 19 anos, conhecido como “Rabisco”, ocorrido na manhã da última quinta-feira (1º) dentro de uma boate, na Vila Juquita, em Maracaju, a 160 quilômetros. O crime envolveu uma teia de desconfiança, avisos de bastidor e pichações de facções criminosas nos muros da família dos autores.
Ray chegou ao estabelecimento por volta das 02h da madrugada. Ele pagou todas as despesas, cerca de sete garrafas de cerveja e fichas de sinuca, em dinheiro vivo diretamente à proprietária do local. Curiosas por não conhecerem o jovem, garotas de programa da boate perguntaram o que ele fazia na cidade. O rapaz deu uma risada irônica e disse apenas que veio para “fazer uma correria”.
A atitude do rapaz acendeu o alerta em Gabriel de Souza Ribeiro, de 26 anos, que é irmão da dona da boate e ajudava no atendimento ao público. Testemunhas relataram que Gabriel chamou uma das atendentes de canto e avisou: “Fica velhaca, não comenta nada sobre nós não, só cuida”.
Segundo os depoimentos, ele demonstrava receio de que o jovem soubesse quem eram seus familiares, já que Ray ostentava uma tatuagem associada a uma facção e passou a vigiar o movimento.
Por volta das 06h da manhã, com as portas fechadas para clientes externos, Ray fez uma ligação telefônica solicitando que um suposto “irmão” orientasse um “padrinho” a pagar sua passagem de ônibus para ir embora da cidade.
Ao mesmo tempo, a dona do estabelecimento acordou com uma mensagem enviada por seu outro irmão, Rafael de Souza Ribeiro, o “Rafinha”. Na mensagem, ele afirmava que o rapaz que consumia na boate pertencia a um grupo rival e que “tinha que morrer”. Assustada, a mulher respondeu pedindo que ele parasse com aquilo e apagou o texto em seguida por medo.
Conforme testemunhas, a rivalidade já vinha acumulando tensão dias antes, quando o muro da casa da mãe dos irmãos foi pichado com as frases “Vou te matar” e referências ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
Perto das 08h, Gabriel saiu do salão e retornou minutos depois pedindo um carregador e cigarro, checando se Ray ainda continuava no bar. Cerca de vinte minutos depois, Gabriel retornou acompanhado de Rafael. Ambos chegaram a pé, trajando roupas escuras e armados com uma faca e um facão.
Na entrada do estabelecimento, Gabriel se posicionou estrategicamente atrás da parede da mesa de sinuca para fechar qualquer rota de fuga. Rafael caminhou em direção à vítima e perguntou diretamente pelo seu vulgo. Assim que o jovem respondeu que era o “Rabisco”, os dois irmãos iniciaram o ataque imediato com golpes no peito.
Mesmo embriagado, Ray tentou erguer uma mesa de madeira do bar para se defender das estocadas. Na tentativa desesperada de escapar, o jovem esbarrou na proprietária, que gritava por socorro, e correu para a cozinha da boate, onde desabou gravemente ferido no chão.
Os dois autores fugiram a pé do local logo após o ataque. O socorro e a polícia foram acionados cerca de vinte minutos depois. Quando as equipes chegaram, Ray já estava morto.
Prisão em flagrante – Em ação conjunta, a Polícia Civil de Maracaju e equipes da Defron (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira) iniciaram buscas na região e localizaram Gabriel escondido na kitnet do seu pai na Vila Juquita. Ele recebeu voz de prisão em flagrante e, na delegacia, optou pelo direito de permanecer em silêncio.
Gabriel acumula passagens anteriores por homicídio, tráfico de drogas e desacato. A Polícia Civil representou pela conversão de sua prisão em preventiva. O rapaz optou por ficar em silêncio durante o depoimento. Ele tem passagens por homicídio qualificado, tráfico de drogas, desacato, crime tentado e homicídio simples.
Rafael (“Rafinha”), apontado como integrante batizado de facção criminosa há poucos dias, segue sendo procurado pelas forças de segurança. Os dois irmãos tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça.
Guerra de facções – Ray era apontado como integrante do CV (Comando Vermelho) e teria sido “decretado” pelo PCC . Ele havia chegado a Maracaju no domingo (27), vindo de Anastácio, e a suspeita é de que estivesse no município para expandir a atuação do Comando Vermelho.
O jovem tinha 15 registros policiais por crimes como tráfico de drogas, desacato, furto e ameaça. Em março deste ano, foi preso por suspeita de envolvimento com organização criminosa e permaneceu detido até 21 de agosto.
Campo Grande News
