A diminuição desses profissionais ocorre em decorrência do atraso nos pagamentos a anestesiologistas contratados sob o regime de PJ (Pessoa Jurídica), que estão há mais de sete meses sem receber. Essa situação comprometeu a capacidade técnica-operacional da Santa Casa e gerou atrasos na realização de procedimentos cirúrgicos.
Diante disso, a direção do hospital adotou medidas de priorização dos atendimentos, conforme a gravidade e a urgência de cada caso:
- Cirurgias eletivas: temporariamente suspensas;
- Cirurgias de urgência e emergência: mantidas, conforme avaliação das equipes médicas, em conjunto com o coordenador do centro cirúrgico e a diretoria técnica.
No entanto, a Santa Casa afirma que há um acordo firmado para o pagamento dessas competências atrasadas até o fim desse mês de janeiro. A diretoria informou ainda que mantém contato com as equipes médicas para avaliar pacientes em condições semelhantes e organizar, junto ao centro cirúrgico, alternativas que permitam a realização dos procedimentos antes das datas inicialmente previstas.
‘Responsabilidade é da Santa Casa’
Presidente do Sinmed-MS (Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul), Marcelo Santana, esclareceu que não recebeu qualquer comunicado formal de greve. De acordo com o sindicato, os contratos de prestação de serviços são firmados entre a Santa Casa e empresas médicas/pessoas jurídicas e não diretamente entre médicos e prestadores, o que impede a formalização de um movimento grevista nos moldes tradicionais.
“A questão principal é que o pagador não é o Estado ou a Prefeitura. Os contratos ocorrem entre a Santa Casa e pessoas jurídicas. Então a Santa Casa vem sempre com esse argumento de que não houve repasse do dinheiro, mas o contratador das empresas é a Santa Casa. A responsabilidade de pagamento é do empregador”, disse.
Ainda assim, o sindicato destacou que é de conhecimento público a gravidade da situação contratual, com atrasos que já passam de sete meses e descumprimento de termos de acordo firmados com o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Apesar disso, a entidade reforçou que, oficialmente, não foi comunicada nem oficiada sobre qualquer greve.
Atrasos afetam profissionais de 12 especialidades médicas

Em outubro de 2025, o presidente do Sinmed-MS afirmou que o problema era crônico e cobrou posicionamento mais firme por parte do hospital. Segundo ele, há médicos impactados em cerca de 12 especialidades, todos contratados por regime PJ.
“A Santa Casa alega que não está fazendo o pagamento porque não está tendo repasse municipal ou estadual, mas esses médicos não fizeram contrato nem com o município, nem com o Estado. Eles fizeram contrato com a Santa Casa. Então, a responsabilidade do pagamento é da Santa Casa”, diz.
O sindicato explica, ainda, que esses profissionais são contratados por empresas terceiras, que não estão recebendo o valor devido pela Santa Casa. A empresa responsável pela anestesiologia tem mais de 100 profissionais alocados na instituição, de acordo com Marcelo. “Mas existem outras empresas, como a de ortopedia, que é a mesma situação.”
Além disso, ele ressalta que as empresas e os médicos contratados como PJ seguem pagando impostos e emitindo notas, o que gera custos, mesmo sem receberem o pagamento devido. Por fim, ele informou que o sindicato judicializou a questão, na tentativa de obrigar a Santa Casa a fazer os pagamentos, que totalizam R$ 3,5 milhões.
Greves e crise financeira

Em dezembro de 2025, a Prefeitura de Campo Grande anunciou que Santa Casa receberia pelo menos R$ 54 milhões em 2026 para dar fim à crise financeira que se instalou no hospital.
“A gestão da Santa Casa não é do município, mas recentemente passou por crises e falta de recursos, e a greve dos médicos, e dos funcionários, afeta diretamente a população de Campo Grande. Diante desse cenário, nós estamos repassando o recurso novo”, afirmou a prefeita Adriane Lopes (PP).
A partir de 2026, o hospital receberá mais de R$ 54 milhões em repasses, que somam verbas da Prefeitura, do Governo do Estado e emendas parlamentares da bancada de Mato Grosso do Sul no Congresso Nacional. O acordo foi feito após reunião entre representantes do Estado, Município e Santa Casa com o MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul).
Em 2025, crise financeira levou enfermeiros e servidores do setor administrativo a deflagrarem greve em protesto contra o atraso do 13º salário. Além dos médicos, outros profissionais de serviços essenciais da unidade reivindicaram melhorias nas condições de trabalho.
Na ocasião, os trabalhadores rejeitavam a proposta da Santa Casa de parcelar o pagamento em três vezes, entre janeiro e março de 2026. No entanto, após reuniões, a categoria aceitou a proposta, que encerrou a paralisação. Assim, o pagamento de 50% do décimo terceiro ocorreu em 24 de dezembro, e o restante em 10 de janeiro de 2026.
Da falta de insumos à penhora de bens
Na mesma época, O CRM-MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) emitiu nota alertando para o risco iminente de desassistência na Santa Casa, diante da falta de insumos, medicamentos e profissionais. Já o MPT-MS (Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul) orientou que a Justiça do Trabalho autorize a penhora de bens e valores da ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande) e, de forma subsidiária, do patrimônio dos integrantes da diretoria, para garantir o pagamento do 13º salário dos médicos.
Segundo o MPT-MS, a Santa Casa é reincidente no descumprimento de obrigações trabalhistas e responde a pelo menos seis ações civis públicas relacionadas a salários, férias, 13º e FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). O órgão reforçou que os riscos da atividade econômica devem ser suportados pelo empregador, ou seja, não podem ser transferidos aos trabalhadores.
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