Nos últimos três anos, o MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul) foi seis vezes a Sidrolândia, município da região central do Estado. Nesta quinta-feira (26), mais uma operação foi deflagrada.
A reportagem do Jornal Midiamax apurou que os alvos seriam pessoas ligadas à prefeitura. No entanto, o município não é alvo.
Em nota, a assessoria confirmou que “a princípio, não tem nada vinculado com a prefeitura”. Equipes foram vistas em vários pontos da cidade, conforme o portal SidroNews.
Meses atrás, o MP revelou um esquema de propina via Pix envolvendo vereadores da cidade. A Operação Dirty Pix envolveu ainda diretores do hospital municipal.
Uma operação que rendeu vários desdobramentos foi a Tromper. Entre maio de 2023 e junho de 2025, foram cinco fases. Ficou demonstrado que havia um esquema de corrupção na prefeitura liderado pelo ex-secretário Claudinho Serra.
Por conta disso, Serra foi preso duas vezes e só conseguiu ser solto porque levou o caso a instâncias superiores. A operação já rendeu algumas condenações.
Operação Tromper revelou esquema de corrupção na Prefeitura de Sidrolândia
Em maio de 2023, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) foi às ruas de Sidrolândia para cumprir mandados de busca e apreensão contra empresários e servidores: era o início da Operação Tromper.
O alvo era a empresa Rocamora Serviços de Escritório Administrativo Eirelli, do empresário Ricardo José Rocamora Alves, que seria por onde passava a maior parte das notas frias emitidas no esquema.
A firma havia conquistado mais de R$ 2,3 milhões em contratos com a administração municipal, de itens que vão de chaveiros a merenda escolar, fato que chamou a atenção dos investigadores.

Meses depois, em julho, o Gaeco lançou a segunda ofensiva contra o grupo acusado de ‘abocanhar’ milhões em verbas públicas de Sidrolândia.
Naquele momento, foram presos os empresários Ueverton da Silva Macedo e Roberto da Conceição Valençuela, além do então servidor municipal Tiago Basso da Silva — que, tempos depois, firmou a primeira delação do caso.
Nesta ação, sete envolvidos foram denunciados pelo MP e se tornaram réus:
- Ueverton da Silva Macedo, o Frescura (empresário);
- Ricardo José Rocamora Alves (empresário);
- Roberto da Conceição Valençuela (empresário);
- Odinei Romeiro de Oliveira (empresário);
- Evertom Luiz de Souza Luscero (apontado como laranja de Frescura);
- César Augusto dos Santos Bertoldo (servidor);
- Flávio Trajano Aquino dos Santos (servidor).
Já o empresário Milton Matheus Paiva Matos, que foi denunciado, está com processo suspenso após fechar o segundo acordo de colaboração premiada. Conforme as investigações e a delação premiada, o grupo se reunia para discutir fraudes em licitações no município de Sidrolândia. Denunciado, o ex-secretário de Infraestrutura Carlos Alessandro da Silva se livrou do processo.
Em abril de 2024, foi deflagrada a terceira fase da Tromper. Foi identificada nova ramificação da organização criminosa, atuante no ramo de engenharia e pavimentação asfáltica. Os contratos já identificados e objetos da investigação alcançam o montante aproximado de R$ 15 milhões.
Na ocasião, o ex-secretário Claudinho Serra, na época vereador da Capital, foi preso. Ele havia tomado posse na Câmara poucos dias depois da primeira fase da operação. Menos de um mês depois, Serra foi solto.
Em abril de 2025, Claudinho Serra e outros 22 viraram réus após o juiz da Vara Criminal da comarca de Sidrolândia, Fernando Moreira Freitas da Silva, aceitar a denúncia apresentada pelo MPMS.
Investigações do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e delação premiada do ex-servidor Tiago Basso da Silva apontam supostas fraudes em diferentes setores da Prefeitura de Sidrolândia, como no Cemitério Municipal, na Fundação Indígena, no abastecimento da frota de veículos e em repasses para Serra feitos por empresários. Os valores variaram de 10% a 30% do valor do contrato, a depender do tipo de “mesada”.
Já em junho, o MPMS realizou a quarta fase da Tromper. Segundo as investigações, a organização criminosa permaneceu ativa mesmo após a deflagração das operações anteriores e a aplicação de medidas cautelares.
Claudinho Serra voltou a ser preso nesta etapa. Após meses recorrendo, o ex-vereador e ex-secretário conseguiu ser solto por decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça).
Por fim, em agosto de 2025, o grupo de sete empresários foi condenado a 111 anos e 11 meses de prisão por crimes de corrupção, peculato, organização criminosa e também fraude em licitações.
Gecoc revela esquema de propina por Pix a políticos e presidente de hospital
A Operação Dirty Pix, do Gecoc/MPMS (Grupo Especial de Combate à Corrupção, do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul), cumpriu 18 mandados de busca e apreensão em Sidrolândia e Manaus (AM) em 18 de novembro de 2025.
A investigação identificou o desvio de R$ 5,4 milhões em recursos públicos destinados ao Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa. O valor foi repassado pelo Governo do Estado à Prefeitura de Sidrolândia para a compra de um aparelho de ressonância magnética e uma autoclave hospitalar.
Porém, parte dessa verba foi desviada pela direção do hospital e pela empresa fornecedora, a Pharbox Distribuidora Farmacêutica de Medicamentos (CNPJ 20.820.379/0001-93). A empresa ainda teria pago vantagens indevidas a vereadores.
Os pagamentos eram feitos por meio de transferências Pix diretamente, ou por meio de terceiros, aos parlamentares e ao presidente do hospital, Jacob Breure.
Foram alvos da operação:
- Cristina Fiúza (MDB), vice-prefeita de Sidrolândia;
- Enelvo Felini Júnior, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente;
- Izaqueu Diniz, o Gabriel Autocar (PSD), vereador;
- Cledinaldo Cotócio (PSDB), vereador;
- Adavilton Brandão (MDB), vereador;
- Jacob Meeuwis Breure, presidente do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa;
- Elieu Vaz (PSB), ex-vereador;
- José Ademir Gabardo (Republicanos), ex-vereador;
- Júlia Carla Nascimento;
- Júlio César Alves da Silva;
- Comercial Gabardo (CNPJ 08.217.980/0001-90);
- Gabriel Auto Car (CNPJ 19.409.298/0001-16);
- Farma Medical Distribuidora de Medicamentos e Correlatos (CNPJ 40.273.753/0001-95);
- Pharbox Distribuidora Farmacêutica de Medicamentos (CNPJ 20.820.379/0001-93).
“Dirty Pix”, termo que dá nome à operação, traduz-se da língua inglesa como “Pix Sujo” e faz alusão à natureza ilícita das transferências financeiras utilizadas para viabilizar o esquema.
O advogado de Jacob Breure, Wellison Muchiutti, negou que ele fazia parte do esquema de propina via Pix. “Não houve Pix na conta. Essa parte da investigação de que a empresa estava pagando vereador não tivemos”, comentou.
Em nota, a Pharbox garantiu ter entregue os dois equipamentos médicos comprados pelo hospital em setembro de 2023.
A empresa alega ainda não ser responsável “pelo que terceiros fazem ou eventualmente fizeram à época, com seus recursos advindos da comissão comercial” e que nenhum pagamento da empresa e da diretoria foi feito “a quaisquer dirigentes do referido hospital, tampouco para quaisquer políticos, pessoas citadas, às quais [nem] sequer são do nosso conhecimento”.

Como era o pagamento de propina em Sidrolândia?
Segundo o MPMS, os pagamentos indevidos eram feitos diretamente aos vereadores ou por meio de terceiros. Cledinaldo Cotócio (PSDB); Izaqueu Diniz, o Gabriel Autocar (PSD); e Cleyton Martins receberam juntos R$ 145 mil da Farma Medical.
Já Adavilton Brandão (MDB) teria recebido R$ 20 mil por meio da conta da esposa. Três pessoas são apontadas como operadores do esquema: Júlio César Alves da Silva; a filha dele, Júlia Carla Nascimento; e a companheira de Júlio César, que não foi alvo da operação.
“Júlio Cesar Alves da Silva exerce significativa influência política, evidenciando que um mero participante secundário no esquema de redistribuição de recursos ilícitos, mas sim figura com significativa capacidade de articulação nos bastidores, tornando-se peça-chave na sustentação política da gestão hospitalar”, avaliaram os promotores.
No total, Júlio César teria recebido R$ 482,5 mil da Farma Medical e da Pharbox, que seriam do mesmo dono. O empresário também não foi alvo de busca e apreensão.
A filha dele, Júlia, fez repasses de R$ 20 mil para Enelvo Felini Júnior (PSDB), Ademir Gabardo (Republicanos) e Cristina Fiúza (MDB); R$ 10 mil para outra pessoa citada na investigação; e R$ 5 mil para Elieu Vaz (PSB).
